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Escreve, Apaga!

Já ando há uns dias neste escreve e apaga, numa procura de palavras indecifráveis, As mesmas palavras que os olhos dizem, e que a voz não irá nunca verbalizar. Ficam os pensamentos, esses errantes, deslumbrados por impossíveis pausas no tempo. Rosa do vale do rio

Distâncias gélidas

O sol brilha forte, amarelado e quente para um dia de inverno. Respiro fundo com a esperança vã de que este ar gélido que me rodeia, me gele por dentro a mim também, neste dia em que por dentro amoleço e me deformo, neste dia em que queria ser dura, pontiaguda, com espinhos afiados. Eventualmente acabaria por me deixar arredondar, limando-me lentamente à medida que os espaços se encurtam e se transformam. Rosa do vale do rio

Perseverança

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Contrariar a vontade de desistir. Resistir à impaciência. Testar a perseverança. Desafiar o limite. Mas, cuidado com esse, esse tem personalidade própria, nunca sabemos ao certo quando o atingimos, Vai dando avisos e hoje deu-me alguns... Mas, como teimosa que sou, lá consegui convencer o limite a dar as mãos á paciência. Mais um dia, perseverança. Rosa do vale do rio
Conquista Livre não sou, que nem a própria vida  Mo consente.  Mas a minha aguerrida  Teimosia  É quebrar dia a dia  Um grilhão da corrente.  Livre não sou, mas quero a liberdade.  Trago-a dentro de mim como um destino.  E vão lá desdizer o sonho do menino  Que se afogou e flutua  Entre nenúfares de serenidade  Depois de ter a lua!  Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'  

Um abraço

Um abraço cura feridas, um abraço onde a minhas palavras não chegam. Preenchendo esse vazio que só um abraço consegue preencher, alcançar esses lugares que só um abraço consegue visitar. Aí onde a criança inquieta ainda habita, esse lugar que só um abraço sincero consegue afagar. Podes acreditar que por entre os teus solitários silêncios, há sempre alguém que ocupa seu silêncio pensando em ti. Nesse mesmo silêncio onde a tua força e a tua coragem são o abrigo secreto dos momentos em que o verbo desaparecer se conjuga em todas as pessoas. Rosa do vale do rio

Memória

Bem sei que não seria expectável escrever-te, já que não é hoje o dia dedicado a escrever em tua memória. Sabes que nesse dia irei calar e nada direi. Esse dia será para mim e para sempre, o dia em que as justificações serão sempre injustificadas, o dia em que a teimosia levou a melhor. E sabes, esse dia não vale nada para mim. Valias-me tu, estando nele. Mas, que vale um dia marcado pela ausência de ti, e para sempre? Tanto tempo. Secretamente, sei que desde esse dia te tenho mais perto, mais meu. Como hoje, como sempre. E embora tenha saudades da tua voz, do teu colo, do teu olhar doce e paternal, eu sei que os teus sábios ensinamentos permanecerão dentro de mim para sempre, será essa a minha homenagem a ti. Para mim, sentir-te perto é sentir-me caminhar na direção do ser humano que foste. É uma honra. Palavra de honra. Rosa do vale do rio

...

O vento leva-te suavemente, como quem leva uma pena. Ora subindo, ora descendo... Adormeci com essa imagem, que a certa altura já era um bailado ritmado pelo silêncio de uma distância galáctica. E por momentos esqueço os traços do teu rosto, a profundidade do teu olhar. Ficando apenas a dança, com os seus altos e baixos. Rosa do vale do rio